Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Conto Infantil de uma Hora


Era uma vez um senhor velho velho velho. O corpo dele eram as barbas que tinha, tão longas eram.
Chamava-se Tempo.
Um dia, tantas eram as suas filhas, que o Tempo resolveu dar-lhes nomes a todas. Às horas.

Hora Primeira
Hora Certa
Hora Incerta
Hora Esperada
Hora Chegada
Hora H
Hora Declarada
Hora Interminável
Hora Desejada
Hora Infindável
Hora Marcada
Hora da partida
Hora do Adeus
...

E tantas horas passou a nomear horas que ao Tempo se esgotaram os nomes.
Faltava apenas uma Hora. Já que a penúltima se chamou Hora Final.

Esta ficou muito chateada por todas as suas irmãs terem identidade, menos ela. E nesta insatisfação começou a percorrer o Mundo e todo o seu dicionário  a ver se se encontrava.

E foi num certo momento, numa certa hora, e já pronta para desistir, no máximo da sua frustração, que a Hora se irritou e gritou:
Ora Bolas!
E foi assim que, livrando-se do H e juntando-se a outra palavra (sempre é melhor estar acompanhada), que a Hora largou o seu “nome comum” e destacou-se das suas irmãs – simples substantivos abstractos- e passou a ser então, uma forte interjeição!
Ora bolas!

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

branco paisagem

(a call to arms e nantes - Beirut)

Esta é a música com que andava de bicicleta em Évora. Soam as primeiras notas. Estou a postos. Começo a pedalar. Deixo o portão verde. O parque infantil. Entre outras coisas que ficam para trás. Cada viagem é uma única viagem. Tudo se começa a misturar no girar da roda.

As casa têm hortas. Os cães dali, tal como os gatos de todo o lado, são senhores de si e vêm-me a passar. Viro a esquina e lá estão as muralhas. Continuo a girar. Largo as mãos e o sol bate-me na cara com a suavidade deste inverno-primavera. E o mundo é meu.

Qualquer tristeza qualquer melancolia qualquer alegria são minhas e por elas passeio, uma mão ao volante e a outra ao vento.
Já não estou a pedalar posso apenas ir e os campos, as canas, as vacas estão para trás, estão no presente, estendem-se para a frente e o sol sempre.

Antes julgava que as muralhas cresciam aos poucos como as plantas e sem que desse conta, me enterravam dentro delas. Dentro do seu silêncio. Mas não. São senhoras de si e vêm-me passar e não é silêncio.

Às vezes dou por mim a andar a pé, sem esse silêncio e o sol enterrado nas suas sombras. Fecho os olhos e relembro todo aquele branco paisagem do Alentejo e tudo o que ficou para trás e presente e para a frente, mas principalmente lembro o sol que não me bate nos olhos fechados.

Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Domingo, 6 de Novembro de 2011

Fernando de Castro Branco

Obrigada ao Fernando e à Cris:


NO REGRESSO DA CAÇA

Esta primavera traz de novo a nossa velhice,
aquela que as palavras só fazem mais pesado o seu embrulho,
em papel de prata ou outras metáforas do mesmo tipo.
Ouvem-se os abismos à luz e vou com os passos
desvanecidos levantar pedras.

Eu trazia comigo os cães, há sempre um cão comigo
suporta a chuva no Planalto, e bem me pareciam eles assim
latindo verso a verso às perdizes, comigo atrás arfando,
já então, de pássaro algum. Havia sempre um entrave
ao épico desenlace, o meu avô já mal me ouvia, mas eu,
uma vez mais, insistia com as causas do fracasso. Eu e os cães
alheios ao acto: uma trincheira de silvas, uma toca
inopinada, um pastor em má hora e o pássaro adeus
aos cães e a mim também.

Já em casa, alta noite depois das fragas, os cães resfolegavam,
e, de cansaço, mal lambiam o caldo de batatas com toucinho.
O dono amava-os em sua incompetência na arte das caçadas
às perdizes ou às lebres. Só por uma vez nos queixos
do Farrusco piou uma cotovia.

Amanhã, haveria sempre uma outra correria para fracassar.

- Fernando de Castro Branco

Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

O Luva Negra, poema à Maria

O Luva Negra é contrabandista.
De cidade em cidade ele procura o proibido,
pilha e devassa, deixa tudo vazio.
Esta cidade aplaude, viva o contrabandista que
nesta terra é bem visto, levou o que era proibido
tudo agora é permitido.

A cidade vizinha onde todos viviam em
irritante calmaria,
vê chegar o Luva Negra, de bolsos cheios
de proibida mercadoria.
E se ali de proibido pouco havia,
troca em troca, com inflações e vigarice,
todos aplaudem o contrabandista
Que deixam a cidade repleta da mais
ilicita e excitante patifaria.

E as mulheres arrepiadas com o perfume
do malfeitor
Exibem os seus maridos aparvalhados,
também é ilicito o seu amor.
Mas o luva negra não desvia caminho
não desvia o olhar.
Aquela luva guarda o beijo da única mulher que soube amar.

E apesar do mulherio
ele pilha e devassa
e esconde e trespassa,
mas por onde quer que passa,
leva o seu coração vazio.

Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

Domingo, 8 de Maio de 2011

Ela

Não sabia ainda quem ela era mas várias vezes a imaginava. Calculava por onde ela entraria, mas não começava sequer a tentar perceber como reagiria eu à sua presença. Tal era a imponência que eu lhe adivinhava. Na minha visão era alta a perder de vista. Todos a imaginam assim, claro, e até “perder de vista” de facto ela é.

Na sua infinitude se perdia o seu conceito e assim tranquilamente (a maior parte do tempo) seguia a minha vida.
Assim, ou de algum outro modo parecido, seguimos todos, mesmo depois de a conhecer.

Quando a conheci foi através da minha avó.
A minha avó pegou-me na mão e apresentou-ma do modo mais carinhoso que pôde, de modo a não me assustar. E Ela não me assustou, avó.
Não sei bem como reagi a esse encontro. Sei que ela entrou levemente, pairando no ar, mal dei pela sua presença. Era alta a perder de vista, sem que eu a visse realmente e não era ela que se perdia.

A segunda vez ela entrou de rompante e a sua magnitude chocou-me. Este tipo de encontros sem aviso imaginam-se sem se querer (nunca se quer) mas nem sequer se conseguem imaginar. Ela entrou de rompante e impestou o ar, literalmente, vinha carregada de cheiro e imagem. E ainda assim foi difícil de acreditar na sua presença.
Não sei bem como reagi, ainda hoje não acredito nesse encontro. Mas no meu coração continuo chocada, tenho mais saudades alojadas e mais rostos me sorriem de modo familiar.

Pouco depois quando me voltou a visitar, aí sim me assustou. Assusta permanentemente. A sua presença esmagou-me completamente.

Parece estúpido e mórbido, mas é como se sempre que ela me visita me desse a mão, não a dela, mas a de quem leva, e ando na vida sempre com essas companhias próximas de mim. De uma maneira carinhosa. Gosto de pensar nelas, de lembrar cada pormenor, e de as ir vendo em trejeitos de conhecidos e desconhecidos.

Ainda hoje não sei como reagi a primeira vez à sua presença, nem a segunda, muito menos como reagi a terceira vez, e não sei como reagirei amanhã quando a for apresentar ao meu cão. Mas posso dizer que a conheço já, e sei bem o seu nome como não sabia antes (embora saiba que o terei que conhecer sempre melhor). Ainda assim não o quero escrever aqui, porque a detesto e tenho medo.