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O branco é paisagem

O branco é paisagem
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quarta-feira, 26 de maio de 2010

quando ela vê

Ela olha o mar, mas não o vê.
Do azul faz-te os traços
Das ondas o calor o ardor
Do vento os suspiros e por pouco a emoção.
Então mergulha o mais rápido que pode para adormecer o corpo no teu toque.
Pára.
Inspira(-se), retém(-te)
a respiração,
e gira e roda, gira roda roda vira-se revira-se do teu avesso.
Sai lentamente da água, sol a pique, como se se enterrasse no tempo.
Deita-se de barriga para baixo e deixa o mundo girar lentamente à sua volta.
E volta para a vida.

Maio 2010
Leonor Um Dia

sábado, 22 de maio de 2010

2008

Cena I

Mulher num espaço vazio.


Um, dois, três, quatro minutos, passa o ponteiro sempre igual.
Um, dois, três, quatro anos, passa o ponteiro sempre igual.
Um segundo junta-se ao outro e vão andando,
E o ponteiro vai passando.
Mas algo muda afinal..

Em nome do futuro,
Entram brutalmente pelas casas
Roubando-lhes o seu próprio.
Surdos aos choro de quem carregam ainda ao colo
Surdos ao choro dos que vazios ficam.
Dediquem-se ao seu oficio,
Deixem a formação dos mais novos
Ao nosso futuro.

MULHER: Este minuto nunca mais passa...
Para quê? Nada muda nos minutos. Se eles não levassem os números todos... o ponteiro tinha por onde passar... levam primeiro 1, depois 2, depois 3, até estarmos todos vazios.
Há sempre este silêncio devastado que espera... que espera resignado. Não faças barulho... também te levarão e tudo continuará quieto.
Até parece que estão a pedir para os levarem. Quanto mais rápido for, mais rapidamente nos habituamos e seguimos em frente. E andamos todos olhos no chão, sem perceber para onde é a frente. Mas descansemos, eles cuidarão também de nós, também a nós nos levam.
E amanhã serão vocês, hoje levados pelas suas mãos sujas, que apontarão contra nós, que nos levarão tranquilamente para o futuro.
Às vezes gritamos. À vez. Ou em conjuntos.
Mas há sempre este silêncio. Distraímo-nos e ele emerge violento, traz-nos à garganta o desespero. Só ele surge afinado com todas as vozes que por fim se calam.
E o ponteiro não pára. A espera não pára. Até parece que pedimos para os levarem...
Mais valia levantarem-se e dizerem: é a minha vez! Talvez aí eles ficassem por aí. Se alguém se levantasse tomando a sua vez. Mas todos se levantam e dizem: ainda bem que é a vez dele, não a minha. E assim levam tudo. Ficam só os minutos, às voltas, às voltas, às voltas.
Não faças barulho. Também vão cuidar de ti. Eu não posso fazer nada. Não posso fazer nada. Não podemos fazer nada. Talvez alguém pudesse fazer algo...
Mas tu não.
Não vou deixar que mais nada meu faça algo por eles, agora ou amanhã. Deito ao lixo o meu interior, mas tu não lhes servirás de ponteiro.


Cena II

PRIMEIRO HOMEM: Não podemos fazer nada. Quanto as mais consolamos mais angustiadas ficam.
SEGUNDO HOMEM: Aqueles filhos da puta a quem o diabo nos entregou a todos. Se os apanhássemos quando vêm aos pares. Se soubesse que cara têm...
PRIMEIRO HOMEM: Tu sabes bem quem são...
SEGUNDO HOMEM: (silêncio)
PRIMEIRO HOMEM: Também não a consegues consolar pois não?
SEGUNDO HOMEM: Pois não...
E a mim quem me consola?
Mas não sei porque é que ela não descansa agora... Já as perdemos às duas, porque raio não pode ela sossegar!
O que há mais para pensar? Acabem-me com estes murmúrios, já estão entranhados no soalho, nos armários, no silêncio.
Ela que chore mas vá dormir. Amanhã tem forças para chorar mais e eu para ouvi-la.


Cena III

Mulher. Entram dois Homens, o homem 1 e o homem2. Vêm de farda.

MULHER: Outra vez?

HOMEM (1): Espanta-te?

Espancam-na. Andam de um lado para o outro à procura. Voltam a espancá-la um pouco mais e saem.

MULHER: Sinto nas minhas mãos o pulso. Tum tum tum. Alguma coisa dentro delas parece querer sair, aos soluços. Ou me avisa que lá está, dá-me pontapés. Também os sinto no pescoço, nos pulmões. No estômago não, todo ele berra.
São bonitas as minhas mãos, são punhos. Mas não, já não está nada dentro, já não me podem tirar nada. São só elas que palpitam a vida que lhes resta.
Estão paradas agora intactas e vazias soluçam.


Cena IV

Anoitecer. Um pequeno descampado ao lado de um supermercado. Zona de despojos, mal iluminada.

MENDIGO: Boa noite amigos caixotes. Já vos roubaram as entranhas e vos abandonaram esvaziados? Já não servem a mais ninguém? Servem-me a mim que a noite hoje oferece frio a preço de saldos. Ao preço da minha cabeça destapada.
E esta boneca, está com ar de ter vindo numa caixinha. Não me digas que já aqui passou outro como eu, roubou a embalagem deixou a bonequinha!
Não falasse eu com vocês, lixo, e acharia que esta bonequinha respira ainda, que tem pele e carne como a minha.
Que bonita.
Não me digas que se fartaram de um anjinho. Calha a sorte a boa gente, já não precisam de um anjinho, preferem antes a caixinha...

Encosta a cabeça ao corpo do que parece ser uma criança.

Não me digas que a mim, que falo directamente com os anjos lá em cima, me visita cá em baixo esta santa porcelana cujo frio está quente ainda.

Com ternura, tira o cobertor debaixo dela e tapa-a.

Eu sei que assim não ficas tão bonita, mas a noite não se importa com essas coisas…

Volta a por o cobertor por baixo e tapa-a agora com a sua camisola suja.

Se aqui os meus amigos não se rissem de mim, ia roubar comida para te dar.
Se for preso passo a noite debaixo de um tecto, se não, talvez a noite esqueça a rudeza e pense que a boneca é gente, e me compense por ajudar!

O mendigo sai.


Cena V

Mulher (2) passeia um cão que foge para junto do local do mendigo.

MULHER (2): Óscar! Oscarzinho!! Bebé, deixa a porcaria!

A mulher pára, incrédula, e vai-se embora a correr.

Aparece Homem (3), que vem buscar o cão que ficou para trás.


HOMEM (3) (nervoso, fala como se estivesse mais alguém presente): Óscar! Estás aqui há horas!!! Pensei que já tivesses morrido de frio!

Pausa. Olha em redor e avança devagar. Observa-a de perto, retira-lhe o cobertor.

Não é possível! Já estará morta? Com certeza que está, está tanto frio...
Uma criança morta! Que crueldade! Que loucura! Como poderá algo assim ter acontecido? É impossível! Estão todas registadas, levam todas, como terão perdido esta?
Uma criança assim, livre?
Não. Não pudemos fazer nada por ela agora, no estado em que a deixaram... deve estar morta, com certeza que está morta. Coitada. Há gente assim...

Pega no cão e em passos largos abandona rapidamente o local. O corpo fica no mesmo sitio mas agora destapada.

Cena VI

O tempo vai passando. Chega o mendigo com um segurança do supermercado.

SEGURANÇA: Estupor! Toma, isto está quase fora da validade! Não me chateies mais a mim nem aos clientes.

O segurança vê a criança e fica momentos a olhá-la.

Que diabo! Vim eu ajudar este estafermo, saí eu desgraçado!
Esta pobre criatura está aqui há horas de certeza. Estará morta? Não lhe consigo tocar. Coitada...
Que culpa tenho eu destes miseráveis que por aqui andam?
Coitados...

Olha para o mendigo, que entretanto a tapou e lhe tenta dar leite para beber.

Mas que raio estás tu a fazer?!
Larga isso estupor, se não comes tu nem te agasalhas, ficam aí os dois! Já te disse para parares!
Merda de vida! Pára!

O segurança empurra o mendigo para o chão e começa a espancá-lo. Vai-se embora.


Cena VII

MENDIGO: Olha os caixotes a rirem-se de nós... julgam que és mesmo uma boneca! Se calhar querem-te para eles. Se calhar não gostam de estar vazios. Realmente vazios são inúteis. Quando têm coisas dentro logo lhes tiram as tripas e os devolvem aqui.
Mas quando me ponho lá dentro fica tudo pacífico. Tudo fica certo.
Ainda estás quente anjinho... Também te ris de mim?! Eu não.
Tu és bonita, vão encontrar-te não tarda. Dão-te um caixote novo, põem-te numa vitrina, até podes aparecer na televisão. Não respires muito, se não deixam-te estar aqui mais os caixotes. Como fazem comigo. Isso, fica só assim, bonita, quieta. Assim, sossegadinha hão de te querer.
A não ser que queiras ficar comigo. Eu não preciso que estejas parada. Deixo-te fazer o que quiseres e não te magoo nem te esvazio. Fazes-me companhia. Não deixo que te façam mal e tu gostas de mim. Agora não preciso de mais nada. Só que os caixotes se calem, que o vento pare de correr e a escuridão de me assustar. E tu? Tu podes pedir à noite que tenha pena e se vá embora. Podes pedir ao mundo que me aqueça um pouco também, me torne assim bonito como tu, me enfeite com folhas e terra e me dê casa enfim. Eu posso rezar que chegue rápida a hora, que não venha gente, e que os caixotes não se riam se chorar.

Vai amanhecendo. O mendigo chora, retira o casaco à criança e tapa-se.

Fim

carta recuperada

(...)Que bom é ter noticias tuas. De repente por um buraquinho de email vêm-me uma imensidão de mundo, uma simplicidade de mundo. Faz-me olhar para esta paisagem plana de alentejo sem vento, e na complicação que o terreno vazio esconde, e tudo me parece deturpado e saturado,(...), terra agridoce de tempo escaldante e gélido. Assim te confesso o meu alentejo. De céu e pecado.
E com isto não te digo mal da vida. Digo-te a minha vida feita em alentejo. Que o que tem de gelo tem de chamas, e, caramba, dou-me bem com isto porque nasci no outono mas no meu coração sinto-me primavera. E nas horas em que não me arreliam, é sempre primavera.
E bom, já te disse tudo :)
Um beijo sempre teu.

Leonor Um Dia

quinta-feira, 20 de maio de 2010





Vejo o alentejo passar.
Não me empurra,
por momentos não faz mal a vida passar.

Se fecho os olhos Lisboa acorda,
insónia desolada.
Lisboa dos autocarros apinhados às 8h da manhã em Sete-Rios,
Lisboa do Cais-do-Sodré mal habitado às 6h.
Lisboa de tantos cafés, tantos.
Lisboa sem nada para fazer,
chove.
Lisboa do passo apressado.
Lisboa das mil pessoas que encontro,
das pessoas que se defendem,
das pessoas que nunca vejo,
Lisboa das supresas.
Passa o camião do lixo de madrugada,
acorda o papagaio que grita,
Os primeiros autocarros ecoam,
e o comboio passa sempre.

Sem ela não eras tu Alentejo,
não saberias que este é o Teu silêcio.

Leonor Um Dia
09.05.09

Leonor Uma destas Noites

Um dia ela foi ao telefone
E quando voltou o seu amado papagaio
jazia dependurado.
Já não falava,
nunca falou, coitado.
Acordava à noite com os camiões do lixo, em berros alarmados
não me deixava dormir nada,
continuo a não dormir, coitada.

Descobri que é de familia,
Entrar pela noite aos berros no imenso silêncio
e por lá ficar dependurada.

Às vezes durmo.
Às vezes custa-me tanto a acordar,
parece que a vida de momento não apetece.
mas quando chega a noite
teimo em não acabar o dia,
não vá eu ao telefone....

Leonor Um Dia
07.2009