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O branco é paisagem

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domingo, 6 de novembro de 2011

Fernando de Castro Branco

Obrigada ao Fernando e à Cris:


NO REGRESSO DA CAÇA

Esta primavera traz de novo a nossa velhice,
aquela que as palavras só fazem mais pesado o seu embrulho,
em papel de prata ou outras metáforas do mesmo tipo.
Ouvem-se os abismos à luz e vou com os passos
desvanecidos levantar pedras.

Eu trazia comigo os cães, há sempre um cão comigo
suporta a chuva no Planalto, e bem me pareciam eles assim
latindo verso a verso às perdizes, comigo atrás arfando,
já então, de pássaro algum. Havia sempre um entrave
ao épico desenlace, o meu avô já mal me ouvia, mas eu,
uma vez mais, insistia com as causas do fracasso. Eu e os cães
alheios ao acto: uma trincheira de silvas, uma toca
inopinada, um pastor em má hora e o pássaro adeus
aos cães e a mim também.

Já em casa, alta noite depois das fragas, os cães resfolegavam,
e, de cansaço, mal lambiam o caldo de batatas com toucinho.
O dono amava-os em sua incompetência na arte das caçadas
às perdizes ou às lebres. Só por uma vez nos queixos
do Farrusco piou uma cotovia.

Amanhã, haveria sempre uma outra correria para fracassar.

- Fernando de Castro Branco

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Luva Negra, poema à Maria

O Luva Negra é contrabandista.
De cidade em cidade ele procura o proibido,
pilha e devassa, deixa tudo vazio.
Esta cidade aplaude, viva o contrabandista que
nesta terra é bem visto, levou o que era proibido
tudo agora é permitido.

A cidade vizinha onde todos viviam em
irritante calmaria,
vê chegar o Luva Negra, de bolsos cheios
de proibida mercadoria.
E se ali de proibido pouco havia,
troca em troca, com inflações e vigarice,
todos aplaudem o contrabandista
Que deixam a cidade repleta da mais
ilicita e excitante patifaria.

E as mulheres arrepiadas com o perfume
do malfeitor
Exibem os seus maridos aparvalhados,
também é ilicito o seu amor.
Mas o luva negra não desvia caminho
não desvia o olhar.
Aquela luva guarda o beijo da única mulher que soube amar.

E apesar do mulherio
ele pilha e devassa
e esconde e trespassa,
mas por onde quer que passa,
leva o seu coração vazio.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

domingo, 8 de maio de 2011

Ela

Não sabia ainda quem ela era mas várias vezes a imaginava. Calculava por onde ela entraria, mas não começava sequer a tentar perceber como reagiria eu à sua presença. Tal era a imponência que eu lhe adivinhava. Na minha visão era alta a perder de vista. Todos a imaginam assim, claro, e até “perder de vista” de facto ela é.

Na sua infinitude se perdia o seu conceito e assim tranquilamente (a maior parte do tempo) seguia a minha vida.
Assim, ou de algum outro modo parecido, seguimos todos, mesmo depois de a conhecer.

Quando a conheci foi através da minha avó.
A minha avó pegou-me na mão e apresentou-ma do modo mais carinhoso que pôde, de modo a não me assustar. E Ela não me assustou, avó.
Não sei bem como reagi a esse encontro. Sei que ela entrou levemente, pairando no ar, mal dei pela sua presença. Era alta a perder de vista, sem que eu a visse realmente e não era ela que se perdia.

A segunda vez ela entrou de rompante e a sua magnitude chocou-me. Este tipo de encontros sem aviso imaginam-se sem se querer (nunca se quer) mas nem sequer se conseguem imaginar. Ela entrou de rompante e impestou o ar, literalmente, vinha carregada de cheiro e imagem. E ainda assim foi difícil de acreditar na sua presença.
Não sei bem como reagi, ainda hoje não acredito nesse encontro. Mas no meu coração continuo chocada, tenho mais saudades alojadas e mais rostos me sorriem de modo familiar.

Pouco depois quando me voltou a visitar, aí sim me assustou. Assusta permanentemente. A sua presença esmagou-me completamente.

Parece estúpido e mórbido, mas é como se sempre que ela me visita me desse a mão, não a dela, mas a de quem leva, e ando na vida sempre com essas companhias próximas de mim. De uma maneira carinhosa. Gosto de pensar nelas, de lembrar cada pormenor, e de as ir vendo em trejeitos de conhecidos e desconhecidos.

Ainda hoje não sei como reagi a primeira vez à sua presença, nem a segunda, muito menos como reagi a terceira vez, e não sei como reagirei amanhã quando a for apresentar ao meu cão. Mas posso dizer que a conheço já, e sei bem o seu nome como não sabia antes (embora saiba que o terei que conhecer sempre melhor). Ainda assim não o quero escrever aqui, porque a detesto e tenho medo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Porque não sabemos gritar quando queremos. porque o meu sangue circula conspirando por baixo da minha pele. Os pensamentos começam a meio de uma frase. E a minha vida é em tons pastel. Porque não gritamos quando gritamos. Mas sabemos perceber, respeitar, esperar, aguentar, e eu só queria saber gritar. Porque o meu sangue circula mudo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

e tal

Se eu conseguisse "como que" explicar o que sinto
E alguém conseguisse "como que" perceber
era uma chatice, não era poesia.
Queria saber escrever por cores,
e não ter de usar palavrões.