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O branco é paisagem

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domingo, 6 de novembro de 2011

Fernando de Castro Branco

Obrigada ao Fernando e à Cris:


NO REGRESSO DA CAÇA

Esta primavera traz de novo a nossa velhice,
aquela que as palavras só fazem mais pesado o seu embrulho,
em papel de prata ou outras metáforas do mesmo tipo.
Ouvem-se os abismos à luz e vou com os passos
desvanecidos levantar pedras.

Eu trazia comigo os cães, há sempre um cão comigo
suporta a chuva no Planalto, e bem me pareciam eles assim
latindo verso a verso às perdizes, comigo atrás arfando,
já então, de pássaro algum. Havia sempre um entrave
ao épico desenlace, o meu avô já mal me ouvia, mas eu,
uma vez mais, insistia com as causas do fracasso. Eu e os cães
alheios ao acto: uma trincheira de silvas, uma toca
inopinada, um pastor em má hora e o pássaro adeus
aos cães e a mim também.

Já em casa, alta noite depois das fragas, os cães resfolegavam,
e, de cansaço, mal lambiam o caldo de batatas com toucinho.
O dono amava-os em sua incompetência na arte das caçadas
às perdizes ou às lebres. Só por uma vez nos queixos
do Farrusco piou uma cotovia.

Amanhã, haveria sempre uma outra correria para fracassar.

- Fernando de Castro Branco