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O branco é paisagem

O branco é paisagem
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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

carta

Leitor,
Falo apenas para um, que de mais não tenho garantias. Falo para ti, portanto. Seguimos.
Leitor,
Neste momento deves estranhar a minha abordagem directa. Não é meu costume. É que normalmente escrevo para mim, e ponho-me a jeito... E por essa razão - mesmo que não saiba à partida o que vou escrever - confesso-te já que a maioria das vezes, tal como esta, não sei onde vai parar a minha conversa, apenas tenho vontade de falar - é muito difícil surpreender-me. Pois, se só estou a tagarelar!
A este paragrafo tão prematuro da conversa começo a sentir-te a  impaciência miudinha. Começas a concordar que o que faço é tagarelar? Queres agora que te surpreenda com a razão desta minha invasão da tua privacidade. Porque a final de contas estou aqui a auscultar-te. A tentar sentir-te.
                                                                                  A tentar que existas.
Pior, estou aqui com a presunção que consigo tiro ao alvo fazer-te servir a carapuça. Como uma astróloga. Estou a tentar desesperadamente arranhar a tua privacidade com palavras sem garras!
Exiges por esta altura que te surpreenda! Que justifique tudo isto! Não estás aqui para te ler a ti!
Mas eu não consigo surpreender-me a mim!!

Caro leitor,
Não consigo evitar agora um outro tratamento, portanto.
Caro leitor,
vai-te lixar!
Vens aqui ler-me!Ler-ME. Sabe-se lá por que razão, e ficas aí na distância amuralhada pelo teu silêncio, onde me negas a tua existência. É por isso que falo para mim. Eu tento encostar a minha orelha escrita à tua muralha lábios cerrados para te sentir vivo e tu nada! No máximo queres saber onde vai tudo isto dar. E pelos teus lábios cerrados que não ouço mas que estou a ver tão bem, vejo escorrer as minhas palavras, atiradas sem força, caindo sem resistência.

Querido leitor,
Que queres, corra isto como correr, não consigo deixar de sentir uma intimidade maior do que no início.
Querido leitor,
É bom saber que pelo menos ainda aí estás. Tinhas desistido e estava eu outra vez sozinha e não me ia preocupar em atirar palavras a esta tela branca do computador quando os teus lábios cerrados são uma tela infinitamente mais bela.

Desculpa.

Quando te mandei lixar estava só a tentar materializar em mim o que poderia ser uma reacção em ti.

Acabo de perceber que era esta a intenção desta carta para ti, querido, belo, lábios leitor. E juro que comecei sem saber como ia correr esta conversa.

Mas por mais ilusório que seja, sinto que as minhas palavras ouvidos auscultando teus olhos muralhas carnudas cerradas se tornaram palavras beijos - sem garras. Que quer queiras quer não, se chegaste até aqui  tens de te considerar beijado.
                                                                     
                                                                                  Sinto-te a existir.

Meu querido leitor tão íntimo sem nome,
Não nos vou gastar mais.

Espero-te - volte a dizer-lo ou não - ter comigo em breve sempre,

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

do sol.da beira do mar


Do Algarve

Tento relembrar as frases soltas, flashes fotográficos de palavras que decoram imagens.
Não tenho papel à mão.
Chego agora ao computador e as imagens ficaram na rebentação da praia. deslavando-se lentamente com o bater da distância, as palavras confundindo-se com o barulho que decorei de olhos fechados no mar.

A poesia deve ter métrica e ser bonita diz o meu pai.
Minha mãe diz coisas em inglês como quem pendura as palavras com molas nas vogais erradas. “sujeito X tem parkin(mola)son”
Quando acabar Agosto seremos um povo muito mais instruído a julgar pelas determinadas revistas que vejo em todas as mãos, nos corpos estendidos na grelha.
Meu sobrinho fala tanto sem palavras tirando uma ou outra que já estendeu ao sol. Quando souberes dizer tudo o que queres tentarei dizer-te quais foram as tuas primeiras. “Sim” e “não” inauguraram a tua personalidade. Dir-te-ei que és um prodígio por contares até dez e fazeres toda a gente rir.


“cuidado que vem ai o homem mau!” “cuidado olha que vem aí o secador!”; “medo” diz o sobrinho. Já decoraste esta palavra que não vais mais esquecer. “medo, kiko tem medo”. Ganhará mais sombra esta palavra.

E assim nos tornamos, antes de tudo, tão cautelosos. Não impediu que batesses com a cabeça na quina da mesa. Tens uma marca de guerra.

Meu pai conta-me como antes da internet se correspondiam com rostos desconhecidos das madrinhas de guerra. Feridas de que guerra escondem atrás das cartas? Que feridas tens tu que escondes tão bem, com esse ar de quem sempre controla a vida, colocando as coisas sempre no mesmo lugar para não as perder. Nunca te ouvi falar do que perdeste, nem sei dizer quando estás triste.

Sim mãe, prometo ter cautela. Sempre cautela. O mar ali é revolto. Tem cuidado ao ir ao banho. Se calhar é melhor nem ires. Se calhar é melhor nem viveres. Tenho medo de te perder. Mãe o receio alastra-se como uma praga, enterrando os nossos corpos na areia sem vontade de sair mas sempre espreitando a vida que passa ao largo. Se acolhes o receio enterra-lhe por baixo as expectativas se não a cara que fica de fora a respirar chora sempre. O medo tenho sempre. Às vezes tenho-lhe revolta. O Medo cheio de sombra temos sempre, mas os pequenos medos...caramba!Às vezes por revolta também os estendo ao sol, encarando-os de frente, forçando os olhos a ficarem abertos. Mas se dou por mim a pensar antes de falar, a pensar antes de escrever, lá dou com eles a entranharem-se pelas nesgas da alma.

Neste momento estou feliz. Por isso acordo mais cedo. Quando se está feliz escreve-se menos. Disseram-me. Sente-se mais quando se está triste, disseram-me. Quando se está feliz tenta-se decorar de olhos fechados o momento. Para não deixar o medo entrar, talvez. Quando se está triste anda-se de mãos dadas com o medo, mas os olhos também fechados..

Este verão tentei decorar tudo de olhos fechados no mar. Não foi por causa do medo ou nada desse género. Apenas me soube bem.

domingo, 22 de julho de 2012

Manifesto da Re-Theater Co., grupo de teatro fundado e dirigido por Manuel Grangeio Crespo, em Nova York





"O teatro não é distracção. O teatro é apenas distracção na medida em que não deve ser chato.
(...)
Chamamos Teatro ao sítio onde as pessoas vão todas as noites despojar-se das suas diferenças, das suas personalidades, dos seus fantasmazinhos individuais; chamamos teatro ao sítio onde as pessoas vão despojar-se de tudo o que as separa umas das outras, mergulhar a sua consciência nos mitos comuns, a fim de que a realização de cada homem não possa levar nunca senão à realização do homem.
(...)

O teatro para nós é sinónimo de transformação.
Consideramos a vida como um meio de o homem perguntar a si mesmo:  "o que é isto?" e "porque é que estou aqui?" e "para onde vou?" e "que pode levar-nos daqui para ali?". O teatro é o sítio onde as pessoas vão para não se esquecerem de fazer estas perguntas, e o sítio onde voltam para se assegurarem de que as respostas a que chegaram, e que serviram ontem, ainda servem hoje.


A questão é sempre: o que significa ser um Homem?e a vida deveria ser sempre a expressão desta pergunta. Por a vida ter cessado de tentar responder-lhe é que os homens deixaram de precisar do teatro para moldar as suas vidas.

O teatro é o sítio onde o homem faz perguntas. Não as perguntas do João, do José ou do António. Não: como consegue o António ser o António, mas perguntas de homem: como pode o António ser um homem, antes de ser o António.

As diferenças são apenas relevantes quando aquilo que é comum está já inteiramente realizado. O teatro, que é o coração de uma civilização,  também pode ser o braço com que o homem a recusa.

Queremos que a vida seja a expressão, não a traição do homem, e chamamos teatro à manifestação desta vontade.


Os homens vêm todos da mesma origem, e se eles se dirigem para  alguma meta, só lá poderão chegar juntos.


O teatro é o lugar onde os homens vêm para compreender que o futuro é o seu passado comum, a  sua comum herança."


Março de 1965

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Jamaica, Amsterdão, Copenhaga, Japão, numa esqina de Lisboa.


Numa discoteca condensada de fumo e suor, corpos juntos, frenéticos, dançam o cansaço para fora de si.
A cerveja na mão traça o eixo descontrolado dos musculos. Se me abanar o suficiente o tédio esgota-se comigo e quando cair na cama dormirei de imediato.
A música não me diz nada. Retenho o ritmo, reabasteço a cerveja. Finalmente o estado hipnótico do balanço dos corpos.
No meio de todos dois namorados beijam-se pela última vez numa música que só eles ouvem. Talvez não seja isso. Talvez dois amigos se beijem pela primeira vez numa musica que decoram para sempre.
Esvaziado o espaço dum tempo-vida que se fingiu, abre-se a porta para os primeiros raios de sol. A insaciedade de algo que não se cumpriu respira a manhã, insistindo em forças que restam para procurar algo mais.
Autocarros apinhados de senhoras da limpeza, padeiros, rostos fatigados de mais um mesmo dia que reinicia rasgam a poesia que não existiu sequer. Não há muito mais...
Quando chegar à cama dormirei de imediato.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Conto Infantil de uma Hora


Era uma vez um senhor velho velho velho. O corpo dele eram as barbas que tinha, tão longas eram.
Chamava-se Tempo.
Um dia, tantas eram as suas filhas, que o Tempo resolveu dar-lhes nomes a todas. Às horas.

Hora Primeira
Hora Certa
Hora Incerta
Hora Esperada
Hora Chegada
Hora H
Hora Declarada
Hora Interminável
Hora Desejada
Hora Infindável
Hora Marcada
Hora da partida
Hora do Adeus
...

E tantas horas passou a nomear horas que ao Tempo se esgotaram os nomes.
Faltava apenas uma Hora. Já que a penúltima se chamou Hora Final.

Esta ficou muito chateada por todas as suas irmãs terem identidade, menos ela. E nesta insatisfação começou a percorrer o Mundo e todo o seu dicionário  a ver se se encontrava.

E foi num certo momento, numa certa hora, e já pronta para desistir, no máximo da sua frustração, que a Hora se irritou e gritou:
Ora Bolas!
E foi assim que, livrando-se do H e juntando-se a outra palavra (sempre é melhor estar acompanhada), que a Hora largou o seu “nome comum” e destacou-se das suas irmãs – simples substantivos abstractos- e passou a ser então, uma forte interjeição!
Ora bolas!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

branco paisagem

(a call to arms e nantes - Beirut)

Esta é a música com que andava de bicicleta em Évora. Soam as primeiras notas. Estou a postos. Começo a pedalar. Deixo o portão verde. O parque infantil. Entre outras coisas que ficam para trás. Cada viagem é uma única viagem. Tudo se começa a misturar no girar da roda.

As casa têm hortas. Os cães dali, tal como os gatos de todo o lado, são senhores de si e vêm-me a passar. Viro a esquina e lá estão as muralhas. Continuo a girar. Largo as mãos e o sol bate-me na cara com a suavidade deste inverno-primavera. E o mundo é meu.

Qualquer tristeza qualquer melancolia qualquer alegria são minhas e por elas passeio, uma mão ao volante e a outra ao vento.
Já não estou a pedalar posso apenas ir e os campos, as canas, as vacas estão para trás, estão no presente, estendem-se para a frente e o sol sempre.

Antes julgava que as muralhas cresciam aos poucos como as plantas e sem que desse conta, me enterravam dentro delas. Dentro do seu silêncio. Mas não. São senhoras de si e vêm-me passar e não é silêncio.

Às vezes dou por mim a andar a pé, sem esse silêncio e o sol enterrado nas suas sombras. Fecho os olhos e relembro todo aquele branco paisagem do Alentejo e tudo o que ficou para trás e presente e para a frente, mas principalmente lembro o sol que não me bate nos olhos fechados.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012