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O branco é paisagem

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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

do sol.da beira do mar


Do Algarve

Tento relembrar as frases soltas, flashes fotográficos de palavras que decoram imagens.
Não tenho papel à mão.
Chego agora ao computador e as imagens ficaram na rebentação da praia. deslavando-se lentamente com o bater da distância, as palavras confundindo-se com o barulho que decorei de olhos fechados no mar.

A poesia deve ter métrica e ser bonita diz o meu pai.
Minha mãe diz coisas em inglês como quem pendura as palavras com molas nas vogais erradas. “sujeito X tem parkin(mola)son”
Quando acabar Agosto seremos um povo muito mais instruído a julgar pelas determinadas revistas que vejo em todas as mãos, nos corpos estendidos na grelha.
Meu sobrinho fala tanto sem palavras tirando uma ou outra que já estendeu ao sol. Quando souberes dizer tudo o que queres tentarei dizer-te quais foram as tuas primeiras. “Sim” e “não” inauguraram a tua personalidade. Dir-te-ei que és um prodígio por contares até dez e fazeres toda a gente rir.


“cuidado que vem ai o homem mau!” “cuidado olha que vem aí o secador!”; “medo” diz o sobrinho. Já decoraste esta palavra que não vais mais esquecer. “medo, kiko tem medo”. Ganhará mais sombra esta palavra.

E assim nos tornamos, antes de tudo, tão cautelosos. Não impediu que batesses com a cabeça na quina da mesa. Tens uma marca de guerra.

Meu pai conta-me como antes da internet se correspondiam com rostos desconhecidos das madrinhas de guerra. Feridas de que guerra escondem atrás das cartas? Que feridas tens tu que escondes tão bem, com esse ar de quem sempre controla a vida, colocando as coisas sempre no mesmo lugar para não as perder. Nunca te ouvi falar do que perdeste, nem sei dizer quando estás triste.

Sim mãe, prometo ter cautela. Sempre cautela. O mar ali é revolto. Tem cuidado ao ir ao banho. Se calhar é melhor nem ires. Se calhar é melhor nem viveres. Tenho medo de te perder. Mãe o receio alastra-se como uma praga, enterrando os nossos corpos na areia sem vontade de sair mas sempre espreitando a vida que passa ao largo. Se acolhes o receio enterra-lhe por baixo as expectativas se não a cara que fica de fora a respirar chora sempre. O medo tenho sempre. Às vezes tenho-lhe revolta. O Medo cheio de sombra temos sempre, mas os pequenos medos...caramba!Às vezes por revolta também os estendo ao sol, encarando-os de frente, forçando os olhos a ficarem abertos. Mas se dou por mim a pensar antes de falar, a pensar antes de escrever, lá dou com eles a entranharem-se pelas nesgas da alma.

Neste momento estou feliz. Por isso acordo mais cedo. Quando se está feliz escreve-se menos. Disseram-me. Sente-se mais quando se está triste, disseram-me. Quando se está feliz tenta-se decorar de olhos fechados o momento. Para não deixar o medo entrar, talvez. Quando se está triste anda-se de mãos dadas com o medo, mas os olhos também fechados..

Este verão tentei decorar tudo de olhos fechados no mar. Não foi por causa do medo ou nada desse género. Apenas me soube bem.