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O branco é paisagem

O branco é paisagem
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sábado, 23 de novembro de 2013

Mel

 Mel

Estava tantas vezes doente
Esse corpo frágil.
Come mel que isso passa
Mas não passava
E nunca gostei de mel.
Só da cor
E da textura.
Lava que não lava
Nem queima
Nem arde
Nem cura,
Pegajosa lembra ao corpo
O seu lado lamacento
Colado a impurezas
Cada vez mais agarrado
Numa mão que mal se abre,
Um coração adoecido
Amarfanhado amarelado entristecido.
E numa colherada
Ele derrete, resistente,
Abrindo numa funda camada
Uma bolha de ar espessa
E a alma curada, lentamente,
Trepa pelo mel coração amarelo denso
Lava que não é vermelha que diz que não queima
Roxa de tanto ar suspenso.
E o corpo que teima
 em dizer que não deixa
Rebenta de repente.
Afinal curava afinal passava e respira.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

a mulher invisível

O problema da mulher invisível é saber que a sua falta vai ser sentida.

Vive sem se esconder, mas nunca é vista. Não quer ser vista. Diz que não quer. Mas incomoda-a que, não se escondendo, não a vejam.

Trabalha e tece as suas linhas, sabendo-as importantes. Diz para si que são importantes. E são. Mas incomoda-a ter que o dizer a si mesma.

 Pensa então que se parar não haverá catástrofe. As pessoas andarão instáveis, com a visão desfocada, desconcentradas. Irão ao médico, culparão o tempo, mas não perceberão a sua falta.

Não. O problema da mulher invisível é que, não querendo, não conseguindo convictamente, atribuir-se de tamanha importância na vida dos outros, não consegue deixar de o fazer. Ela trabalha e tece as suas linhas como missão. Carregará o mais pesado dos fardos porque sabe que, mesmo que se tente convencer que não, se parar haverá o grande diluvio. O mundo ruirá, talvez juntamente com o seu peso. E assim é de facto. Assim, de facto, se sente a sua falta.

Como um rastilho as pessoas conseguem rever todos os seus dias, cada um deles, até ao que ainda há instantes era presente, até à sua imagem - que é agora permanente. Que era, dão-se conta, sempre permanente. E é agora como uma luz que persiste nos nossos olhos fechados. Tão visível se tornou.

E claro, quando finalmente procuram a mulher ela é definitivamente invisível porque já lá não está.

A mulher invisível sabe que tudo isto se passará assim. Tal e qual. E que quando a procurarem já ela não concebe ser vista por tais pessoas. Não quer, não interessa, a sua missão já desabou e o peso desapareceu. Não lhe trará nenhum sabor o tardio reconhecimento.

Resta-lhe então mudar de caminho e continuar seguindo, trabalhando, tecendo as suas linhas, sem parar, mudando de página mas sem parar de facto, obstinadamente, para que não deixe nunca de ver as linhas com que faz o seu caminho. Para que não se esqueça nunca de se ver e de saber quem é.

terça-feira, 16 de julho de 2013

há mar e mar e mar e mar


Dizem que o mel faz bem, que o que arde cura, e que a água salgada limpa tudo.

E dizem que ir ver o mar é o melhor remédio. Ingere-se essencialmente através dos olhos e tem efeito imediato em toda a parte do corpo, incluindo a alma.

[Já não vejo mar há tanto tempo]

enrolo o cabelo com os dedos à velocidade dos meus pensamentos.. ambos me transportam ritmicamente para o mar revolto. Sei que tem rochas, que é de noite e que te encontras no conforto do que já conheces.

[respiro]

Vejo o mar na praia. Pode ter rochas ou não, é de dia, está calor. As ondas têm o compasso da respiração.  O mar, psicólogo, espelha-te com a moldura do horizonte a azul e infinito. Um mar que tu tão bem conheces.

Quando te prescreves então água salgada, doce ou que arda, vais de encontro marcado contigo
[Com o eu que nunca me larga]
Chegas e lá está ele. Não és tu. É ele. A água não te toca na alma! Sente-la na pele, acelera-te os músculos, invade-te as narinas. Queres lá saber da alma. É o mar no teu corpo, nada mais.

Tudo o resto foi sugado, transformado em sal que limpa tudo e tu não sabes porque estás tão cansado.

[Será que é assim? É tudo muito romântico mas deve ser só porque há muito tempo que não vejo o mar]

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ensaio para a tua Alice II

Um dia vi aquela porta. Sabia que não conseguia passar por ela. Dia e noite não me saía da cabeça. Era tão pequena como um dedo e nos meus via dez daquelas portas. Dez impossibilidades para mim. Eu só queria uma.

Enquanto esperava, pensava em todas as maneiras de a passar, de ver o que estaria por de trás. Espiava com o meu olho esborrachado na sua pequena largura, via um espaço infinito e muita luz. Enfiava lá o meu nariz mas de tão apertado não sentia cheiros. O dedo por lá sentia uma leve corrente de ar fresco.
Não desconfiava o que haveria do lado de lá, mas não queria outra coisa. Queria sair deste mundo que não me dava ânsias de coisa nenhuma, queria saber-me capaz de concretizar uma impossibilidade.

E nesta expectativa eu ia mirrando, mirrando. Até ficar do tamanho de um dedo.
Estava na hora, podia passar.
E o que vi era grande de mais para o meu pequeno tamanho. Sim, era infinito. Mas sem cor, sem cheiro, sem calor. Uma infinidade de possibilidades e eu mirrada de mais para as querer fazer despertar nos meus olhos.

Não podia voltar para trás, onde já não poderia encaixar. Onde teria que me admitir vazia depois de tão longo caminho. E para onde olhava não via nada. Não via ninguém. Um silêncio absoluto. Ninguém me esperava, ninguém me chamava. Ninguém percebia a grande impossibilidade que eu tinha ultrapassado. Olhei para os meus dedos, que serviam apenas para limpar as minhas lágrimas.



Ensaio para a tua Alice I



Está quase na hora.
Um grupo de crianças veio chamaram-me pelo nome, não o meu, mas era por mim que chamavam. Gostava de me levantar num salto, correr mais que elas. Espojar-me no monte de folhas secas, sem medo de sujar o vestido, sem medo que as folhas me entrem pela boca. Mas não agora. Agora o meu vestido está impecavel e quero guardar as minhas forças.
Elas brincam à minha frente, dançam entre as árvores. Não vos digo o meu nome – era capaz de não resistir...
Jogam ao jogo do sério comigo, fazem-me cocegas nos pés.
Não posso... em breve. Descalço-me, tiro o vestido, corro descalça com os pés na terra, nua. Com folhas no cabelo, folhas na boca.
Quando for a hora certa.
Estou aqui, atenta, à espera da hora certa. Quando estiver pronta, quando estiveres pronto. Enquanto as árvores à minha volta se mantiverem de pé eu posso esperar. Deixam os seus ramos sentir o vento e eu também.
Às vezes segredam-me que tu estás para chegar. E sustêm os seus ramos por uns momentos. Às vezes, nesse silêncio eu sei que tu estás cá. Que me olhas à distância, rondas-me sempre por onde eu não consigo olhar. Te escondes entre as árvores e lhes pedes que me soprem, que te soprem, para veres o meu cabelo ondular.

Nesses momentos, quando sinto as folhas a misturarem-se no meu cabelo, o ar a passar-me pelos dedos, pelos pés, sinto o meu corpo a escorregar, lentamente, a minha espera desfaz-se em ancias de chegar ao chão e poder correr em tua direcção. Em vez de ar nos pés, esfregá-los no chão. Correr sem paciência, cair, sentir a terra na boca,as folhas do cabelo na boca, a tua presença na boca. Sujar o vestido, tirar o vestido. Ser esta a hora certa.
E tu vais parar com este silêncio, vais gritar o meu nome, vais agarrar-me pelos pés, tirar-me o chão, atirar-me ao chão. E não me vou aleijar.

Eu tenho paciência, sentirás orgulho, de me ver aqui à tua espera, enquanto as árvores se mantiverem de pé.




sábado, 20 de abril de 2013

Retrato

         Se fumasse, o cigarro, entre os dois dedos, balançaria em ondas do mar. Serenamente no acto de inquietação.  Como não fumava, não se via que marinhava, ficava só a serenidade.
        Era segredo escondido que vida pulsava por trás daquela tranquilidade.
        Se o tivesse conhecido melhor saberia também que tique se esconderia por trás dos seus grandes olhos azuis bem fundo dos seus óculos. À eloquência indecifrável dos seus olhos daria boca. Com tanto tempo passado, não me lembro de nada que tenha dito e claro, lembro-me dos olhos.
       A fragilidade que a sua figura inspirava, não era o resultado do seu físico, era a sua alma sensível que se expressava no seu corpo.
      A sua ternura ainda hoje me abraça à distancia.
      Se o tivesse conhecido melhor faria hoje um retrato mais completo.
     

"As Três Irmãs"





terça-feira, 19 de março de 2013

Insónia miada

A noite é longa e começa cedo e o gato já faz sentinela. Confere os mesmos sítios em rotas insuspeitas, não esteja ele a ser seguido.
Pára.
Com uma angústia miada detém-se naquele local exacto. Naquele local onde eu não vejo nada. É aí que ele se sustém e irrompe esse vazio com o seu focinho, enrolando-se com o ar, sentindo a carícia, entregando-se a ela, perfurando o chão como se a fosse encontrar. Naquele preciso local, onde não há nada.
E retoma a sua jornada. Dois passos a seguir e  é ali, corrige um passo para trás, é indiscutivelmente ali, que é esperada a sua carícia. E ainda faltam tantos cantos. E o seu amor é incansável,  faz parte do seu oficio, cumpre-o com distinção - desesperadamente em cada entrega, pacientemente no entretanto de quem sabe infinita a sua missão.
 E se tiver que percorrer o mundo preenchendo todos os espaços vazios, onde eu não vejo nada, em angustia miada, assim o fará e o tomará como seu.

É assim o cio. Não retiro daqui nenhuma conclusão.

Acabou o seu turno, a noite  faz ainda sua guarda, ele lambe do pelo a exaustão de quem tanto deu sem querer retorno e pé ante pé se recolhe no meu cabelo. Eu agradeço, ainda acordada.


sábado, 9 de março de 2013

O teu Alentejo é isto



Fui ao Alentejo 
e quando lá cheguei ressentia-me
e os meus olhos tanta luz.
E a meio de um dia de tempestade,
lá havia sol. claro.
Sentei-me num muro,
sentia a nuca a aquecer rapidamente,
suavemente,
e os pássaros e os sinos,
"olá boa tarde".
E numa golfada de ar cabia tanto Tempo.
Trouxe um bocadinho a mais para casa.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Alentejo tem côr branca de trovoada,

O Alentejo tem côr branca de trovoada,
que se disfarça de luz caiada,
nuvens rastejam como sombras,
tudo conspira para parecer
que é terra abençoada.

Te embrenha sorrateira,
terra desconfiada,
mostra-te a melhor camisa,
soalheira,
bordada de cânticos de pássaros,
de sinos perpétuos enfeitada.

Ali julgas já teu,
o teu Alentejo.
Viúva negra tece já a teia,
em que mergulhas
hipnotizado,
E o teu sangue,
é ela que bombeia no seu
compasso desacelerado,
pelo teu corpo já semeia
destino tatuado.

Serás sempre dele,
do teu Alentejo,
ainda que nele 
não permaneças.
O ritmo do teu sangue 
é ainda ele que o dita,
terra bendita,
que nunca a esqueças.




terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quando o branco se vai esbranquiçando






Vou-me abstendo do título deste blog.
Vai-se afundando esta cidade dentro fundo de mim, nunca para fora. Criança mimada foge para dentro do meu coração, tranca a porta. Ninguém entra ninguém Sai.
Irremediável.
Um dia vou-te pregar uma partida, vou visitar-te eu a ti.