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O branco é paisagem

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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Ensaio para a tua Alice I



Está quase na hora.
Um grupo de crianças veio chamaram-me pelo nome, não o meu, mas era por mim que chamavam. Gostava de me levantar num salto, correr mais que elas. Espojar-me no monte de folhas secas, sem medo de sujar o vestido, sem medo que as folhas me entrem pela boca. Mas não agora. Agora o meu vestido está impecavel e quero guardar as minhas forças.
Elas brincam à minha frente, dançam entre as árvores. Não vos digo o meu nome – era capaz de não resistir...
Jogam ao jogo do sério comigo, fazem-me cocegas nos pés.
Não posso... em breve. Descalço-me, tiro o vestido, corro descalça com os pés na terra, nua. Com folhas no cabelo, folhas na boca.
Quando for a hora certa.
Estou aqui, atenta, à espera da hora certa. Quando estiver pronta, quando estiveres pronto. Enquanto as árvores à minha volta se mantiverem de pé eu posso esperar. Deixam os seus ramos sentir o vento e eu também.
Às vezes segredam-me que tu estás para chegar. E sustêm os seus ramos por uns momentos. Às vezes, nesse silêncio eu sei que tu estás cá. Que me olhas à distância, rondas-me sempre por onde eu não consigo olhar. Te escondes entre as árvores e lhes pedes que me soprem, que te soprem, para veres o meu cabelo ondular.

Nesses momentos, quando sinto as folhas a misturarem-se no meu cabelo, o ar a passar-me pelos dedos, pelos pés, sinto o meu corpo a escorregar, lentamente, a minha espera desfaz-se em ancias de chegar ao chão e poder correr em tua direcção. Em vez de ar nos pés, esfregá-los no chão. Correr sem paciência, cair, sentir a terra na boca,as folhas do cabelo na boca, a tua presença na boca. Sujar o vestido, tirar o vestido. Ser esta a hora certa.
E tu vais parar com este silêncio, vais gritar o meu nome, vais agarrar-me pelos pés, tirar-me o chão, atirar-me ao chão. E não me vou aleijar.

Eu tenho paciência, sentirás orgulho, de me ver aqui à tua espera, enquanto as árvores se mantiverem de pé.




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