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O branco é paisagem

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

a mulher invisível

O problema da mulher invisível é saber que a sua falta vai ser sentida.

Vive sem se esconder, mas nunca é vista. Não quer ser vista. Diz que não quer. Mas incomoda-a que, não se escondendo, não a vejam.

Trabalha e tece as suas linhas, sabendo-as importantes. Diz para si que são importantes. E são. Mas incomoda-a ter que o dizer a si mesma.

 Pensa então que se parar não haverá catástrofe. As pessoas andarão instáveis, com a visão desfocada, desconcentradas. Irão ao médico, culparão o tempo, mas não perceberão a sua falta.

Não. O problema da mulher invisível é que, não querendo, não conseguindo convictamente, atribuir-se de tamanha importância na vida dos outros, não consegue deixar de o fazer. Ela trabalha e tece as suas linhas como missão. Carregará o mais pesado dos fardos porque sabe que, mesmo que se tente convencer que não, se parar haverá o grande diluvio. O mundo ruirá, talvez juntamente com o seu peso. E assim é de facto. Assim, de facto, se sente a sua falta.

Como um rastilho as pessoas conseguem rever todos os seus dias, cada um deles, até ao que ainda há instantes era presente, até à sua imagem - que é agora permanente. Que era, dão-se conta, sempre permanente. E é agora como uma luz que persiste nos nossos olhos fechados. Tão visível se tornou.

E claro, quando finalmente procuram a mulher ela é definitivamente invisível porque já lá não está.

A mulher invisível sabe que tudo isto se passará assim. Tal e qual. E que quando a procurarem já ela não concebe ser vista por tais pessoas. Não quer, não interessa, a sua missão já desabou e o peso desapareceu. Não lhe trará nenhum sabor o tardio reconhecimento.

Resta-lhe então mudar de caminho e continuar seguindo, trabalhando, tecendo as suas linhas, sem parar, mudando de página mas sem parar de facto, obstinadamente, para que não deixe nunca de ver as linhas com que faz o seu caminho. Para que não se esqueça nunca de se ver e de saber quem é.

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