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O branco é paisagem

O branco é paisagem
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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

da culpa

        Não sei exactamente quando é que Deus foi introduzido na minha vida. Sei que começou certamente pelo menino Jesus - não Jesus o tal homem que pregou e fez milagres - era o Menino Jesus que, não tendo idade, seria alguém como eu e era meu amigo. O meu melhor amigo, diziam. Também não me lembro de ter decorado o “Pai Nosso” e o “Avé Maria”, de qualquer maneira eram rezas sem palavras, um texto decorado que valia como um todo sem fôlego, de palavras mastigadas por outros, unidas sem cor e significado. Eram apenas um grande e elastico “bom dia” e “boa noite”, a ser dito de manhã e à noite (prescrições médicas para a alma?) porque se cumprimentamos os nossos amigos, era assim que também deveriamos cumprimentar o nosso melhor amigo, diziam. Assim tentavam aliciar pela confiança e afecto, com a primeira amizade virtual.
        Cedo tive de fazer a primeira comunhão, para fazer parte da sua família. (Se calhar devia ter-me sentido generosa, porque supostamente ele já fazia parte da minha sem requisitos ou candidatura). A preparação consistia em ir à missa e confessar-me. Várias vezes me obrigaram a confessar. Antes de saber o que era o bem ou o mal ou intenção, esforçava-me para encontrar os meus pecados, se não não teria o que dizer na confissão. Disse asneiras, fui má irmã, má aluna ou má filha, só porque poderia ser melhor. Será que serve? Podia não saber o que isso queria dizer, mas na minha cabeça desenvolvia-se uma consciência. Na falta de más acções que pudessem ser castigadas por alguém, desenvolvia-se em mim um Deus, que me vigiava interiormente, sem necessitar de mais ninguém. E perdia-se, claro, a imagem inocente da criança Jesus - que era o primeiro a fugir daquelas sessões retorcidas para ir brincar lá fora - devo ter pensado.
        Um dia aconteceu um episódio que não sei localizar no tempo, sobre o qual nunca pensei durante muitos anos, e que não tinha ligado à religião:
        Estava na cozinha com o meu pai a lanchar e, no momento em que ele se ia sentar num banco, num impulso repentino me atrevi a puxar-lhe o banco e ele quase caiu. O meu pai ficou muito espantado, deve-me ter ralhado e o episódio passou sem mais importância. Mas foi para mim muito doloroso. Deve ter sido a primeira vez em que olhei para o meu pai e lhe senti fragilidade, mortalidade. O Deus da minha cabeça irou-se comigo. Porque fiz eu aquilo? Não tinha qualquer explicação e o sentimento de culpa esmagou-me – ainda hoje não entendo porque o fiz, o que me passou pela cabeça naquele milésimo de segundo. Mas a imagem a vergonha e a dor daquele momento ainda perdura.
      Devia ter rezado alguns “pai nossos” e destilado toda a culpa para fora de mim. Mas a religião acabou por não ser marcante em mim e por isso não me serviu. Apenas ficou o sentimento de culpa e nunca mais me atrevi assim.

       Os senhores padres lá da escola teriam ficado orgulhosos de mim, se lhes tivesse contado este episódio. Agora sim temos um pecado à séria. Agora sim esta confissão foi a valer. Que ir para as confissões inventar culpas era, só por si, mentir.
 


Marta Soares

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A criança projectou uma imagem demasiado viva,
de grandes proporções.
 Dela rasteja no chão uma pequena sombra.
 Somos hoje essa sombra negra e rastejante.
 Com o sabor a terra infértil na boca
ruminamos desesperadamente os sabores de outrora.

  Dói ser essa troca
 e procurar debaixo dos pés
 o céu e as cores e a vida
e ter sempre agarrada a eles essa figura gigantesca que assombra.
 Não saber se estamos virados para trás ou para a frente
 o tempo não escolhe lados.

Marta Soares

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Sobre uma imagem de "Sol Menor", de Joaquim Pinto e Nuno Leonel

No cimo de uma colina,
à beirinha à beirinha,
estava um estendal vazio,
apenas com um pano branco pendurado a meio.

As nuvens que se faziam
espalhavam a luz mal distribuída
mas aquele pano branco
a meio pendurado
para ele reclamava toda a luz daquele dia.

O vento que dali,
da beirinha da beirinha,
mergulhava sem medo
deslizando pela colina
era com o pano que se envolvia
e o sacudia, sacudia.

O meu olhar também ali se prendia
preso com molas àquele pano,
àquele dia
e observava invejoso o acto de amor
e ao prazer violento
que o aquele pano sentia.

Sou eu aquele pano.
Um dia perco as molas.
Um dia.



Marta Soares

sábado, 6 de setembro de 2014

Lá em baixo

Acordei com a boca cheia de lama.
Quis dizer palavras bonitas, por força do hábito
mas dos meus lábios rastejavam vermes.
Escorrem pelo meu corpo como lágrimas
deixando um rasto amargo sujo.
Os meus olhos estavam bem alerta bem claros bem limpos.
mas deles não saia nada.
Um a um passeavam por mim
estranhos que desperdiçavam palavras certas.
Os caminhos lamacentos descem pelas minhas pernas
nuas sem direcção.
As palavras não me habitam. Nem limpam o meu corpo.
Por entre os meus pés, entranhando entre os dedos
sangravam os vermes roendo-me a carne.
Olho para os estranhos pés vermes.
Olho para o céu.
Tenho os olhos claros limpos em silêncio.
Fogem em direcção ao céu sem perceber o que se passa lá em baixo.

Marta Soares

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Quando tinha doze anos tricotou umas meínhas de bebé. Já nenhuma das suas amigas brincava com nenucos e nenhuma tricotava. A maioria já tinha as mãos atadas ao computador. Naquela casa também chovia e também se via televisão. Uma casa normal. Ela também já não brincava muito com as bonecas e via a mãe de pernas estendidas, relaxada, a tricotar. Então a sua mãe baixou o volume só para lhe contar como se fazia e pelo calor morno do som da televisão, as histórias saiam daquelas linhas e ela foi decorando, o caminho das linhas e das histórias.

Quando fez 30 anos, ela foi buscar as meias. Foi buscar as agulhas e as lãs. Ia fazer umas meinhas iguais, e pensar que está na idade  de ter um filho, como seria bom tê-lo e dar-lhe essas meinhas antigas, e se ele ou ela quisessem também poderiam um dia aprender a fazê-las. Já tinha o dobro das histórias para contar. Ligou a televisão e pouco depois as meinhas e as agulhas ficaram esquecidas no seu colo.


Marta Soares

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Quando entro numa Igreja benzo-me.
Não sou católica
Em nome dos avós, dos bisavós,
da educação e de um gesto que já não me pertence,
ámen.

Cada vez mais breve
cada vez mais vazio.

Não dá para ir à Internet
ver onde se guarda a loiça apropriada
ou como se recebe o padre.
Não faz mal, o padre em breve deixará de vir.

Quando eu deixar de vir
fica o museu de portas fechadas
e os mortos ficam com as lembranças deles
e as minhas emprestadas.

As badaladas continuarão a ressoar
os passos pesados no soalho.

E a vida, se lhe apetecer, ressurgirá de outra maneira qualquer.



sexta-feira, 28 de março de 2014

no metro II

A semana está a acabar, o dia a começar
e a vida entre esperas.
Os sonhos desamparados tornam os meus passos pesados
E eu a minutos de me atrasar.
Lanço languidamente vários olhares
com a calma infinita de quem não espera retorno.
Fantasias mornas que se embatem já sem força
contra corações secos e engelhados
e deles escorregam lamacentas,tão ou mais vazias.
Mas tu espreitas-me. Como se eu existisse.
Não me espreites, olha-me. Dispo-me para ti, sem tempo, sem sonhos
Porque a tua palpitação engoliu a minha
com a voracidade das múltiplas possibilidades,

Os sonhos são esperas, os dias não têm principio nem fim
mas tu és um campo vasto de vento parado. Aqui.
A minutos da minha vida começar
Sinto-te quase a chorar? Quero provar as tuas lágrimas e saber
se o infinito sabe a ti.
Depressa.Agora.Aqui.
A segundos de nascer, a segundos de nos perder.
O destino é um caminho apertado e tu não segues a meu lado
Choro mais um fim amargo: “Saio aqui”





segunda-feira, 24 de março de 2014

no metro

Apertado, intimamente apertado,
o meu corpo funde-se com os outros em equilíbrios mútuos,
e o hálito da manhã partilhando o tédio de mais um dia já velho.
A crise é de todos mas cada um com a sua.
Intimamente desligados uns dos outros, olhos vidrados,
e tu... com o teu peito no meu peito
e os lábios à distância de uma palavra.
Insuflo-me de coragem: se pensar mais alto quase me ouves,
não tivesses tu os fones nas orelhas.
E se o meu suspiro te entrasse pela boca e tocasse no céu?

De assalto me encaraste. Corei. E desviei-me da frente,
os olhos, claro, o resto seria impossível.
Mas tu não. Desafiei-te demais, agora não posso fugir.
Os teus olhos abrindo dois pontos de um discurso
silencioso. Tenho medo e o meu corpo paralisado no teu.
Respondes-me com uma vírgula pestanejada. Tenho medo. Fecho os olhos.
Sincronizamos a respiração enfim e o teu peito no meu peito..
-Saio aqui. Soltou-se um abismo da tua boca.
Entre os corpos te fui perdendo.
Ainda assim, as nossas mãos tocaram-se pelos olhos que já não se viam,
um aperto partilhado num toque que deslizou entre as nossas peles.
Talvez te volte a ver num dia em que o medo se tenha perdido pelo caminho,
disse através do vidro e a tua boca à distância de todas as restantes palavras.




quinta-feira, 13 de março de 2014

Do corpo vazio desdobram-se passos mecânicos,
Sem paz ao estar parados.
A garganta trinca silêncios,
E a noite arrasta-se pela existência adentro.

Não sabe que a alma germina palpitações secretas que ao universo pertencem:
É na obscuridade que a poesia conspira.

É nesta treva que um só gesto, do desencanto inesperado,
consegue revolver do mais visceral abismo
uma tempestade que do tormento se transforma em dia

Ao olhar o teu corpo a mim entregue,
esquecido de si na minha respiração suspenso,
tremo ao sentir a alma que julgava ausente.

Neste teu instante infinito onde agora habito
Há a paz do teu cabelo, dos teus ombros alongados em abraços,
Na minha noite és um sismo,
Que abre um espaço em cada um dos meus centímetros cerrados
Tu e ela são aliados e eu não sabia.
No meu útero tu e a poesia conspiram
Um grito que não é treva, não é tormento.
Mas é vertigem, é abismo.



E o universo é a alma a cada instante a dar à luz um recomeço.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

ensaio 1

Há olhos encharcados de vazio,
um passo segue mecanicamente outro
e não há paz em estar parado,

não há paz em estar calado
não há forças num maxilar pesado
que nem em surdina grita.

E o corpo arrastado de noites eternas
recusa-se a despertar.

O corpo, a boca, os olhos,
não sabem que a alma germina
palpitações secretas:

É na obscuridade que a poesia conspira.

Ainda que esse corpo
desista de si mesmo,
Esta alma que é nossa
mas é do universo
como ele é infinita.

É nessa treva que um só gesto
consegue revolver do mais visceral abismo
uma tempestade que do tormento
se transforma em força bruta

Ao olhar o teu corpo a mim entregue,
à espera de nada, esquecido de si
na minha respiração suspenso,
tremo ao sentir a alma que julgava ausente.

Neste teu instante,
Não há alma,
Não há sexo
Não existo eu.
Há o teu corpo, os teus caracois,
o teu pescoço alongando-se em ombros
alongando-se em braços abraços,
e a humidade quente da tua boca.
Existes tu,
Um espectáculo de pirotecnia
Que explode dentro de mim
Abrindo espaço em cada um dos meus centímetros cerrados
Iluminados na ânsia de te querer.

Não há paz em estar parado.
Há um brilho que se revela nas nuvens,
Há as flores chovendo do jacarandá,
Há um sorriso partilhado com um estranho
e a cada passo se segue um próximo

E o universo são todas as mães a cada instante a dar à luz um recomeço.

Na obscuridade a poesia conspira.
Tu e ela são aliados e ninguém me tinha dito.
No meu útero tu e ela conspiram
Um grito que não é treva, não é tormenta.
Mas é vertigem,
É abismo.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Foi um dia em Janeiro.

Tenho as roupas ensopadas
de gritos de crianças
misturados num recinto fechado.
Nas pálpebras pesa-me 
a luz embaciada pela noite precoce.
É neste estado invernoso
que me visita a minha infância.
Não quero  passear por ela,
não quero voltar a ela
não procuro a recordação.
Quero que o arrepio de vida
Que senti ao ouvir a campainha
circule pelo meu corpo em euforia
fique retido mais um dia
E depois de amanhã já seja verão.




sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ia escrever  uma exaustiva reflexão sobre ano que passou e a minha resolução de ser menos preguiçosa. Mas mandei um email minimamente extenso a uma amiga e esgotei-me. Fica para o ano!