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O branco é paisagem

O branco é paisagem
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

ensaio 1

Há olhos encharcados de vazio,
um passo segue mecanicamente outro
e não há paz em estar parado,

não há paz em estar calado
não há forças num maxilar pesado
que nem em surdina grita.

E o corpo arrastado de noites eternas
recusa-se a despertar.

O corpo, a boca, os olhos,
não sabem que a alma germina
palpitações secretas:

É na obscuridade que a poesia conspira.

Ainda que esse corpo
desista de si mesmo,
Esta alma que é nossa
mas é do universo
como ele é infinita.

É nessa treva que um só gesto
consegue revolver do mais visceral abismo
uma tempestade que do tormento
se transforma em força bruta

Ao olhar o teu corpo a mim entregue,
à espera de nada, esquecido de si
na minha respiração suspenso,
tremo ao sentir a alma que julgava ausente.

Neste teu instante,
Não há alma,
Não há sexo
Não existo eu.
Há o teu corpo, os teus caracois,
o teu pescoço alongando-se em ombros
alongando-se em braços abraços,
e a humidade quente da tua boca.
Existes tu,
Um espectáculo de pirotecnia
Que explode dentro de mim
Abrindo espaço em cada um dos meus centímetros cerrados
Iluminados na ânsia de te querer.

Não há paz em estar parado.
Há um brilho que se revela nas nuvens,
Há as flores chovendo do jacarandá,
Há um sorriso partilhado com um estranho
e a cada passo se segue um próximo

E o universo são todas as mães a cada instante a dar à luz um recomeço.

Na obscuridade a poesia conspira.
Tu e ela são aliados e ninguém me tinha dito.
No meu útero tu e ela conspiram
Um grito que não é treva, não é tormenta.
Mas é vertigem,
É abismo.



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