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O branco é paisagem

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sexta-feira, 28 de março de 2014

no metro II

A semana está a acabar, o dia a começar
e a vida entre esperas.
Os sonhos desamparados tornam os meus passos pesados
E eu a minutos de me atrasar.
Lanço languidamente vários olhares
com a calma infinita de quem não espera retorno.
Fantasias mornas que se embatem já sem força
contra corações secos e engelhados
e deles escorregam lamacentas,tão ou mais vazias.
Mas tu espreitas-me. Como se eu existisse.
Não me espreites, olha-me. Dispo-me para ti, sem tempo, sem sonhos
Porque a tua palpitação engoliu a minha
com a voracidade das múltiplas possibilidades,

Os sonhos são esperas, os dias não têm principio nem fim
mas tu és um campo vasto de vento parado. Aqui.
A minutos da minha vida começar
Sinto-te quase a chorar? Quero provar as tuas lágrimas e saber
se o infinito sabe a ti.
Depressa.Agora.Aqui.
A segundos de nascer, a segundos de nos perder.
O destino é um caminho apertado e tu não segues a meu lado
Choro mais um fim amargo: “Saio aqui”





segunda-feira, 24 de março de 2014

no metro

Apertado, intimamente apertado,
o meu corpo funde-se com os outros em equilíbrios mútuos,
e o hálito da manhã partilhando o tédio de mais um dia já velho.
A crise é de todos mas cada um com a sua.
Intimamente desligados uns dos outros, olhos vidrados,
e tu... com o teu peito no meu peito
e os lábios à distância de uma palavra.
Insuflo-me de coragem: se pensar mais alto quase me ouves,
não tivesses tu os fones nas orelhas.
E se o meu suspiro te entrasse pela boca e tocasse no céu?

De assalto me encaraste. Corei. E desviei-me da frente,
os olhos, claro, o resto seria impossível.
Mas tu não. Desafiei-te demais, agora não posso fugir.
Os teus olhos abrindo dois pontos de um discurso
silencioso. Tenho medo e o meu corpo paralisado no teu.
Respondes-me com uma vírgula pestanejada. Tenho medo. Fecho os olhos.
Sincronizamos a respiração enfim e o teu peito no meu peito..
-Saio aqui. Soltou-se um abismo da tua boca.
Entre os corpos te fui perdendo.
Ainda assim, as nossas mãos tocaram-se pelos olhos que já não se viam,
um aperto partilhado num toque que deslizou entre as nossas peles.
Talvez te volte a ver num dia em que o medo se tenha perdido pelo caminho,
disse através do vidro e a tua boca à distância de todas as restantes palavras.




quinta-feira, 13 de março de 2014

Do corpo vazio desdobram-se passos mecânicos,
Sem paz ao estar parados.
A garganta trinca silêncios,
E a noite arrasta-se pela existência adentro.

Não sabe que a alma germina palpitações secretas que ao universo pertencem:
É na obscuridade que a poesia conspira.

É nesta treva que um só gesto, do desencanto inesperado,
consegue revolver do mais visceral abismo
uma tempestade que do tormento se transforma em dia

Ao olhar o teu corpo a mim entregue,
esquecido de si na minha respiração suspenso,
tremo ao sentir a alma que julgava ausente.

Neste teu instante infinito onde agora habito
Há a paz do teu cabelo, dos teus ombros alongados em abraços,
Na minha noite és um sismo,
Que abre um espaço em cada um dos meus centímetros cerrados
Tu e ela são aliados e eu não sabia.
No meu útero tu e a poesia conspiram
Um grito que não é treva, não é tormento.
Mas é vertigem, é abismo.



E o universo é a alma a cada instante a dar à luz um recomeço.